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Xavier Ramos Vilar : Um olhar de um adolescente em 2020

Xavier Ramos Vilar : Um olhar de um adolescente em 2020

Minha história de vida começa no dia do meu aniversário, 11 de março de 2020, porque aquele dia me marcou profundamente. Eu estava em frente à televisão, junto com a minha mãe, assistindo ao jornal das oito da noite, quando deram a notícia de que tinham sido reportados os três primeiros casos confirmados da pandemia de COVID-19, por meio de um Comunicado Oficial das autoridades sanitárias do Governo de Cuba. Os casos correspondiam a três turistas italianos provenientes da região da Lombardia, confirmados pelo laboratório do Instituto de Medicina Tropical “Pedro Kourí” (IPK). Assim, aquela data passava a ser considerada o início da pandemia no território nacional. É verdade que, antes disso, a OMS já havia anunciado o começo da pandemia no mundo, dado o aumento do número de casos dessa doença de sintomas respiratórios, com comportamento semelhante em todos os países, e que vinha custando a vida de muitas pessoas.

Dias antes desse anúncio oficial, eu estava no pré-universitário com 15 anos, terminando o 10º ano na escola militar Camilo Cienfuegos, na localidade de Arroyo Arenas, município de La Lisa. Naqueles dias, vários dos meus colegas tinham adoecido com um resfriado muito forte, inclusive, eu mesmo fiquei doente, com febre muito alta, muito cansaço e mal-estar geral. Liguei para a minha mãe para que ela fosse me buscar na escola com urgência e me levasse para fazer exames, para saber o que eu tinha. Felizmente, foi apenas um resfriado muito forte, consequência do contato com os outros colegas do grupo que estavam na mesma situação, e que se agravou em mim porque eu tinha feito guarda de ronda na noite anterior.

Nos dias seguintes, já em casa, em repouso, os casos de resfriado na escola foram aumentando, e vários colegas receberam liberação por apresentarem o mesmo quadro de febre alta. Uma semana depois, veio o anúncio do dia 11 de março e foram suspensas as atividades escolares até novo aviso, ou até que se decidisse o que fazer com aquela situação no país. Minha incerteza cresceu, porque faltavam apenas quatro meses para terminar o 10º ano, e o que já era evidente é que algo muito sério estava prestes a começar. Sete dias depois, determinou-se uma série de medidas pelo ministério da saúde pública, imediatamente transmitidas pelo rádio e pela televisão para que chegassem ao país inteiro. A epidemia tinha paralisado o processo de ensino e agora ficaríamos em casa, com um sistema de teleaulas, para evitar que os estudantes saíssem às ruas.

As teleaulas começaram a ser organizadas e foram montados horários por grupo: ensino primário, secundário e pré-universitário. Eu, preocupado, programei o celular com três alarmes para me avisar, assim, qualquer que fosse a atividade que eu estivesse fazendo no momento, eu podia gravar as aulas. Por sorte, as explicações eram muito boas e bastante didáticas, algo parecido com o que eu estava acostumado com meus professores na escola.

A adaptação a esse horário — acordar e assistir ao turno das minhas teleaulas — foi difícil no começo, mas, aos poucos, fui pegando o ritmo e me acostumando. Depois, meus colegas me disseram que as aulas também podiam ser baixadas e que havia pacotes no site cubaeduca.cu para cada disciplina e para cada ano, então minha mãe me ajudou e baixou tudo imediatamente. Assim, eu podia sentar e revisar as aulas com mais calma, sem o risco de perder alguma gravação. Para sorte de todos.

Meus colegas e professores criaram vários grupos de conversa no WhatsApp, de acordo com as disciplinas. Às vezes, os colegas tinham dúvidas e começavam a conversar para saber se eram dúvidas coletivas ou individuais. Os professores começaram a orientar tarefas para que a gente revisasse de acordo com o que era apresentado na teleaula da televisão, e isso nos mantinha atentos. A gente acabou criando vários espaços de discussão entre estudantes e professores, o que foi muito útil. O professor de História era muito sério e exigente com a disciplina. Por outro lado, a professora mais exigente era a de Biologia, que às vezes precisava explicar de novo o que ela queria que a gente colocasse nos trabalhos práticos. Muitas vezes, a gente tinha que refazer os trabalhos, porque, no começo, a gente não entendia bem o sistema virtual. Estávamos acostumados à presença direta dos professores diante do aluno, e não a receber orientações por telefone, por mensagem, por áudio, ou por uma aula na televisão.

A experiência foi enorme. Hoje eu percebo isso. Eu teria gostado que fosse mais dinâmica e ainda mais didática, porque, às vezes, os professores não se dão conta de que eles querem ensinar um conteúdo, mas nem todos os estudantes captam com rapidez. Alguns precisam de outras formas para compreender. Encher as apresentações com roteiros e marcas não ajuda tanto quanto colocar figuras que deem mais pistas do que se quer ensinar ou transmitir. Foi uma mudança muito brusca. Até então, eu tinha passado pelo ensino primário e pela secundária com um professor na frente da sala, quadro, giz e ditado, e eu processava aquilo de um jeito diferente.

Posso dizer que, apesar de os professores da escola estarem atentos às nossas inquietações, me ajudou muito ter os números de telefone dos meus professores da secundária básica, com quem eu tinha uma relação muito boa. Às vezes, eu tirava dúvidas com eles — professores que eu conhecia melhor e com quem eu tinha mais confiança —, sobretudo os de química, física e matemática, que são as disciplinas de que eu mais gosto e com as quais eu tinha mais familiaridade. Isso não quer dizer que história, literatura e língua espanhola fossem difíceis para mim, porque, nessas matérias, quem mais me ajudava era a minha mãe, principalmente com redação e ortografia.

Por outro lado, na minha história de vida, foi muito duro me separar dos meus colegas da escola. Como eu estudava numa escola de formação militar, a gente estava sempre muito junto e fazia as atividades em blocos. Se tínhamos que ir para as aulas, íamos todos juntos; para o refeitório também, e, quando tínhamos atividades esportivas, a mesma coisa. Por isso, e porque vivíamos fazendo brincadeiras uns com os outros, sentíamos muita falta uns dos outros. A gente começou a fazer planos para quando o tempo da epidemia acabasse. Uns queriam planejar uma festa, outros queriam que a gente fosse acampar, outros à praia. Só que a gente não sabia quanto tempo duraria aquele problema epidemiológico, nem as consequências que traria para nós como pessoas e, do ponto de vista econômico, para o país — porque o gasto de recursos foi bastante alto. Aqueles planos tiveram que esperar muito. E, quando voltamos às aulas presenciais, havia muito atraso, e a última coisa em que a gente pensava era diversão. Além disso, várias coisas aconteceram e mexeram muito com a gente, como consequência da situação da doença.

Com o passar do tempo, vários colegas meus começaram a sair para a rua e alguns adoeceram junto com toda a família. Muitas vezes foi triste porque, quando a gente trocava mensagens, chegava a notícia de que alguém de alguma família estava grave, internado no hospital ou se recuperando em casa. Em algumas ocasiões, soube de casos que se complicaram e foram para a UTI. Felizmente, a maioria ficou bem, mas a gente lamentou a perda de vários familiares de colegas meus que faleceram, pessoas que nós conhecíamos e de quem éramos próximos. Também soubemos que uma das professoras do pré-universitário perdeu o marido, infelizmente vítima da doença, associada a outras enfermidades.

Na minha família, também passamos por isso, porque morreu uma amiga da minha mãe, que era como uma irmã para ela. Ela se chamava Alina Rodríguez Sánchez e era médica. Trabalhava como parte de uma equipe que atendia um grupo de idosos em um município. Ela adoeceu e foi se agravando porque era hipertensa. Para nós, ela era como família e, do ponto de vista pessoal e profissional, era muito querida pela família. Ela tinha uma única filha autista, marido e pais já bem idosos. Essa situação nos deixou muito tristes. Foram muitos dias de internação em terapia intensiva, até que ela morreu. O restante da família, por sorte, se recuperou fisicamente, mas ficou devastado, porque ela era tudo para eles. Isso nos atingiu com muita força nos sentimentos. Tudo parecia quebrado, como quando um vidro se estilhaça de uma vez. Tudo era triste no curso abrupto de episódios dramáticos que, ao mesmo tempo, nos faziam fraquejar e nos fortaleciam.

Um primo da minha mãe, de Holguín, e toda a família dele adoeceram, mas ele passou vários dias com muitas complicações, porque era motorista de ônibus de turismo e hipertenso; por sorte, se recuperou. Do lado do meu tio materno (irmão da minha mãe), adoeceram a esposa e a filha, mas a única que precisou ser internada foi a esposa do meu tio. Todos os dias a gente ficava muito preocupado com o estado dela, também porque ela esteve na UTI com muita falta de oxigênio e, para piorar, teve hepatite ao mesmo tempo em que estava com COVID-19. Por sorte, ela se recuperou e, aos poucos, voltou para casa depois de 15 dias, embora estivesse bem fraca quando saiu do hospital.

Durante o período em que eu fiquei em casa, minha mãe precisava ir ao hospital onde trabalha, no instituto cubano de oftalmologia Ramón Pando Ferrer, e fazer alguns plantões, além de vigilância epidemiológica e outras tarefas que lhe atribuíssem. Depois, quando a situação epidemiológica ficou mais complicada, deram a ela missões fora do instituto, e ela foi como assessora do MINSAP para um policlínico relativamente perto de casa, o policlínico Dr. Carlos J. Finlay, em Marianao. Ela saía muito cedo para reuniões com equipes de médicos e enfermeiros de família, reunia-se com o pessoal do rastreamento de febre — pessoas de diferentes locais de trabalho que estavam apoiando — e voltava muito tarde. Muitas vezes, precisavam visitar consultórios, e eu ficava muito preocupado porque somos só nós dois e ela estava muito exposta pelo trabalho. Felizmente, começou a etapa da vacinação para reduzir os impactos da epidemia. Ela foi vacinada por ser profissional de saúde e estar em área exposta.

Quando surgiu a iniciativa de sair à noite para aplaudir, das portas das casas, varandas e portais, em reconhecimento ao trabalho dos médicos, eu me orgulhava de saber tudo o que eles faziam para salvar vidas e quantas horas dedicavam a isso. Então eu me sentia orgulhoso do trabalho da minha mãe e dos colegas dela — médicos, enfermeiras e enfermeiros, técnicos. E, quando começou a vacinação com os candidatos vacinais produzidos em Cuba, Abdala e Soberana, eu soube que estavam procurando pessoas que soubessem, ou que estivessem dispostas, a lançar dados. Eu pedi à minha mãe que me autorizasse, porque eu queria trabalhar em algo que ajudasse no enfrentamento da doença, e comecei a ajudar a inserir os dados na base de registro de vacinação dos pacientes da minha área.

Para fazer esse trabalho, recebemos um treinamento, porque eram duas vacinas aplicadas ao mesmo tempo na mesma comunidade, em menores de idade e em pessoas acima de 65 anos, e depois em toda a população. A gente foi alocado no clube jovem de computação da área desse policlínico, e chegávamos cedo. Sentavam a gente para revisar todos os papéis com alguém supervisionando. Às vezes, quando os dados não estavam completos, precisávamos esperar a resposta do consultório do policlínico para obter a informação e registrá-la nos registros primários do departamento de estatísticas, onde todas as funcionárias eram muito amáveis. Eu conhecia quase todas, porque minha mãe tinha trabalhado ali como subdiretora de epidemiologia.

Foi uma experiência voluntária, não remunerada e desinteressada, muito importante para mim por vários motivos. Primeiro porque, no começo, eu senti um pouco de medo, achando que eu poderia adoecer; isso me fez tomar muito mais precauções e, por sorte, eu não adoeci, ou pelo menos não percebi, porque eu não tive nem resfriado naquele período. Segundo, porque eu sabia que o que eu fazia era útil para o registro dos vacinados da minha área de saúde. A partir daí, eu ficava com a satisfação de que, pelo menos, quando o Dr. Francisco Durán, chefe nacional de epidemiologia, falasse na televisão sobre a estatística de vacinados, ele não mencionaria meu nome, mas eu saberia que havia reconhecimento a todas as pessoas que tornavam possível a tabulação dos dados, como ele dizia ao final do boletim que todo o povo de Cuba esperava com ansiedade.

No dia em que avisaram que os estudantes do pré-universitário teriam que ir se vacinar, eu me senti muito orgulhoso, porque na mesma hora eu pensei que meu nome estaria registrado na base de dados em que eu estava trabalhando. E eu me procurei nas três etapas da vacinação, estando registrado sem nenhuma dificuldade. Para minha alegria, na vacinação eu encontrei vários colegas do pré-universitário que moravam no mesmo município. Essa atividade era de cumprimento obrigatório e a gente sabia da orientação: para voltar à escola presencialmente, era preciso ter todas as doses tomadas. Isso nos dava uma garantia para evitar as formas mais complicadas da doença, como explicavam nos noticiários da imprensa nacional.

Para eu ir ao trabalho, minha mãe me dava duas máscaras e uma viseira plástica para a testa. Além disso, a roupa com que eu voltava da rua eu sempre tinha que tirar quando chegava em casa e colocar num balde com detergente, para lavar e deixar no sol. Até os sapatos eu tinha que lavar; e eu arrumei uns plásticos, porque os outros não secavam se eu lavasse à tarde ou à noite e, no dia seguinte, eu precisava usar de novo. Assim fui entrando no trabalho de informatizar as bases de dados e, depois, esse assunto começou a me agradar e me motivar tanto que, quando no pré-universitário chegaram as opções de carreira, eu solicitei informática entre as minhas escolhas de curso superior.

Por outro lado, eu também ajudei, junto com outros colegas da zona, a distribuir módulos de comida nas quadras onde havia muitas pessoas afetadas, que eram colocadas em quarentena para evitar contágio. Nesse trabalho, tinha dias em que a gente começava cedo e precisava fazer duas ou três “rodadas”, porque as pessoas não estavam em casa — tinham saído para o policlínico para fazer exames — e a gente precisava voltar, já que a entrega era pessoal, mediante documento de identificação. Então, a gente acabava tendo que voltar duas ou três vezes até conseguir fazer a entrega para a pessoa certa. As pessoas se sentiam assistidas, especialmente os idosos que moravam sozinhos e as mães com vários filhos, que não tinham mais família por perto.

Meu bairro, em tempos normais, é um lugar tranquilo, mas, nos dias da pandemia, como fica perto de uma avenida muito movimentada, eu via pessoas saindo a pé para diferentes lugares e depois voltando com sacolas de comida. Isso às vezes me fazia sentir mal, porque era como se as pessoas tivessem uma fome muito forte. Ao mesmo tempo, a televisão orientava que as pessoas não saíssem, ou que saíssem de forma planejada, evitando aglomerações. Mas muitas vezes havia indisciplina social e, por isso, eram reportados mais casos. Uma vez, eu estava observando a fila do pão, em que eu também precisava entrar. No chão, havia marcas indicando onde as pessoas deviam ficar, deixando uma distância entre elas. No momento em que diziam que iam começar a vender o pão, todos saíam correndo, se aglomeravam e discutiam para ser os primeiros a comprar. Ao ver aquilo, muitas vezes eu voltei para casa sem pão, para não me meter na fila e não adoecer, porque era evidente que ali podia haver pessoas com a doença. Eu não estava disposto a adoecer por causa da indisciplina na hora de comprar o pão, algo que dava para fazer mais cedo ou mais tarde.

Na minha área, foram criadas lojas em que se formavam filas para comprar produtos. No começo foi bem desorganizado, mas depois surgiram formas de organização entre vizinhos, que avisavam nas quadras para que se soubesse o dia de venda. Sem dúvida, as famílias sempre encontraram soluções para a falta de coisas. E, de verdade, foi muito duro chegar a bater à porta de quem não tinha ninguém para ajudar com algo a mais. Mas, por sorte, a solidariedade do povo sempre aparece em tempos de crise e, pelo menos com os delegados com quem eu trabalhei, eles sempre estiveram muito preocupados com os casos que precisavam de mais atenção.

Foi um momento de fazer muitas atividades de prevenção com a população em condições às quais a gente não estava acostumado, porque muitas vezes os pacientes não queriam ser internados, deixavam para trás as coisas e os familiares. Além disso, a gente trabalhou em meses de muito calor ajudando os vulneráveis, como eram chamadas as pessoas com problemas de saúde que viviam sozinhas e tinham outras doenças. Mas o tempo foi ensinando que, mantendo as medidas de proteção e higiene, era possível reduzir o risco de adoecer. A gente fazia várias atividades, mas sempre com muita cautela e com a orientação dos delegados e de líderes comunitários, que eram quem conhecia melhor a população da área.

É importante reconhecer que a maioria dos estudantes e jovens que participavam dessas atividades tinha alta percepção de risco e sabia que poderia virar caso positivo se não se protegesse mutuamente. Por isso, sempre que alguém se sentia mal, comunicava imediatamente e fazia o teste de COVID para evitar que o resto do grupo adoecesse. Não era medo, era consciência e precaução para não adoecer.

Quando avisaram sobre a volta às atividades escolares, a gente tinha que levar uma série de trabalhos e redigir um texto sobre as atividades que tínhamos desenvolvido durante a epidemia, além de escrever sobre alguns dados estatísticos que representassem nossos conhecimentos sobre o que tinha acontecido. Por isso, quando eu soube que podia escrever sobre isso, minha mãe me avisou e, na hora, eu lembrei do que eu tinha escrito para a minha professora-guia do pré-universitário, o que acabou servindo de recordação. Eu lembro que, entre os dados que eu obtive pela Wikipédia em 2021, apareciam as cifras de 690.142 doentes e 7.957 falecidos, o que significava 1,15%. Depois, ao encerrar o período da epidemia, graças às medidas tomadas, ao trabalho do pessoal capacitado e à rapidez em colocar em prática dois candidatos vacinais, a situação melhorou.

No debate sobre esses trabalhos, a professora-guia usava como exemplo que outros países mais desenvolvidos, que também tinham fechado fronteiras e tinham vacinas supostamente mais eficazes e efetivas do que as nossas, não tinham conseguido um percentual tão baixo de falecidos como o que obtivemos em Cuba. Para ela, esses resultados eram um grande êxito da estratégia cubana de vacinação, iniciativa de cientistas bem capacitados e apoiados pelo comandante e chefe da revolução, Fidel Castro, que, adiantado para a sua época, teria previsto a importância de manter um centro de desenvolvimento de vacinas próprias, úteis para proteger a população, diante das limitações impostas pelo bloqueio dos Estados Unidos, e também como produto exportável, especialmente para países mais pobres.

Nossa Revolução se caracterizou pelo humanismo e pelo internacionalismo, e isso sempre foi uma premissa importante. Eu me pergunto: o que mais a gente poderia fazer para proteger o país com inteligência e com desenvolvimento tecnológico, no campo das vacinas? Graças a essas vacinas, Cuba tem hoje uma indústria que desenvolve imunizantes únicos no mundo, e as vacinas contra a COVID vieram para demonstrar isso. Enquanto grandes empresas farmacêuticas buscavam ser as únicas reconhecidas — com vacinas inseguras, caras, e com sequelas que hoje aparecem em novas patologias, acessíveis apenas a uma minoria de países —, nosso país desenvolveu estratégias próprias com vacinas que demonstraram ser seguras, estáveis, eficientes e eficazes em alto percentual.

Quando meus colegas entregaram seus relatos, todos coincidiam em um elemento principal, que a professora discutiu bastante: a SOLIDARIEDADE. Ela colocou a palavra dentro de um círculo no quadro, e todos concordamos que era o conceito central para enfrentar qualquer adversidade, por mais difícil que fosse. Eu poderia dar exemplos de muitas pessoas que conhecemos enquanto apoiávamos as ações contra a epidemia: gente doando remédios, mandando comida para médicos de plantão; seria interminável citar motoristas que nos transportaram, os que consertavam pneus, enchiam as câmaras das bicicletas ou trocavam freios gastos. Foi um país inteiro se apoiando para seguir em frente.

Essas histórias de vida, felizmente, deixaram muitas lições. E é uma satisfação, como jovem e como cubano, poder falar desses fatos que eu nunca vou esquecer, por tudo o que significaram para mim e para a minha família. Eu penso que isso é algo que vou contar aos meus filhos, e eles aos filhos deles, para que saibam o que a gente viveu em tempos da epidemia de COVID-19 — como minha família me contou histórias de outras épocas do país, quando foram alfabetizar para ajudar quem não sabia ler e escrever, e outras histórias de vida que cada geração tem no tempo em que lhe coube viver.

A epidemia terminou com resultados lamentáveis, próprios de uma doença que tirou a vida de muitas pessoas, jovens e não tão jovens, que tinham muita vontade de viver, como a nossa querida amiga, a Dra. Alina, e tantos outros profissionais de saúde valiosos, que levaremos sempre no coração.

Às vezes, eu me surpreendo quando vou me referir a um período ou a uma data e digo como referência se foi antes ou depois da COVID-19, porque foi tão traumático que não será esquecido com facilidade, pela marca psicossocial que deixou na população.

Tendo refletido sobre o impacto da COVID-19 em mim eu devo dizer que, sendo um adolescente de 16 anos, assumi com responsabilidade e disposição pessoal uma função social como se fosse mais um trabalhador dos serviços de saúde. Meu trabalho de registrar os dados de vacinação e o restante das informações para os boletins diários me formou um hábito de trabalho e de responsabilidade. Com isso, eu encarei — como se fosse um trabalhador social — o transporte de alimentos e outras atenções a casos vulneráveis na comunidade, o que me aproximou das necessidades, penas e dores de uma parte da população que, por idade, doenças, deficiências ou outras razões, vive em condições de vulnerabilidade, com limitações para agir com independência sem a assistência social que recebe. Essas pessoas têm alma, coração e vida. Elas resistiram aos golpes de uma pandemia com o mesmo altruísmo de quem, no voluntariado, decidiu ajudá-las ao chamado das autoridades. Ninguém ficou sozinho, nem sem assistência.

Eu sempre vou me lembrar dos familiares e amigos que morreram, do pessoal de saúde que se contagiou, se expôs, ficou com sequelas, e daqueles que, na exposição, adoeceram e morreram, sobretudo com as cepas do vírus de maior virulência que afetaram a população cubana.

Houve tantas páginas de dor, desolação e morte quanto de heroísmo, por todo o país, assim como em outras nações. Houve também, e eu reconheço com tristeza e indignação, ações de pessoas e famílias irresponsáveis que, pela rotina e por se sentirem infalíveis e impunes, perderam a percepção de risco, se expuseram ao contágio e contribuíram para aumentar os números de contágios e mortes. Muitos violaram as normas de isolamento e distanciamento, fizeram festas, viagens à praia e outras atividades sem a devida proteção, violando as medidas de biossegurança orientadas pelas autoridades sanitárias. É uma experiência da vida pessoal que hoje serve para a vida, me prepara psicologicamente para os desafios do dia a dia e que eu assumo com otimismo e com a convicção profunda das ideias de solidariedade e humanismo que acompanham o povo de Cuba desde o surgimento da nacionalidade cubana. Hoje, a COVID-19 faz parte das tradições e da cultura cubana, nutrindo e enriquecendo o povo e a nação.

Com essas histórias da minha vida durante a etapa da epidemia de COVID-19, deixo aos leitores interessados a minha experiência e espero que não seja preciso contar outras histórias como esta.

Muito obrigado.

Xavier Ramos Vilar

Xavier Ramos Vilar tinha apenas 15 anos quando ouviu falar pela primeira vez da doença rara da COVID-19, surgida na China. Ele era estudante do 10º ano na Escola Vocacional Militar Camilo Cienfuegos, de Arroyo Arenas, município de La Lisa, pertencente à província de Havana.

Nesse tipo de ensino, dá-se muita ênfase à informação e à comunicação para a preparação política dos adolescentes que desejam optar por carreiras militares e se tornar futuros especialistas das forças armadas do país; por isso, é requisito estar em dia com as informações nacionais e internacionais em todos os campos da vida. Foi assim que ele acompanhou o curso do vírus SARS-CoV-2, causador da doença letal COVID-19.

Em 11 de março, quando formalmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto epidemiológico existente em todos os continentes como pandemia e foram reportados os três primeiros casos em Cuba, coincidiu com a data do 16º aniversário de Xavier — data que ele jamais esquecerá pelas circunstâncias dramáticas que o mundo precisou viver.

Ele cursou o ensino primário e a secundária básica em escolas da sua localidade e ingressou no ensino médio superior nos Camilitos.

Hoje, aos 21 anos, o jovem trabalha no Departamento de Informática do Instituto de Cirurgia e Oftalmologia Ramón Pando Ferrer, em Havana, Cuba.

Seu vínculo com a Granjita Feliz lhe permitiu desenvolver suas reflexões sobre a pandemia.