Ariane Bourret : Fitas cassete de lembranças
Play.
Chega uma garrafa ao mar
Com um convite dentro
Pra
voltar à aventura
Um tesouro brilha diante dos meus olhos
Discussão tensa
Recusa imediata.
Não. Não. Não. Nunca
mais.
Meu paraíso é aqui.
Pause. Rewind.
Acordo com o cheiro de fogo
E o canto suave dos
pássaros
Abro bem os olhos
Rápido! Rápido! Mais
rápido!
Corro até a grande porta de vidro
Ufa! Não era só
um sonho
Os raios do sol fazem brilhar
A neve como um
coral cintilante
Apesar da temperatura congelante
Desse
mar selvagem e indomável
Calço as botas, visto meu traje de
exploradora
Vamos lá! Riquezas e maravilhas, tô chegando!
Pause. Fast forward.
Overdose.
Essa paisagem verde me enoja
Quero voltar à
margem
As ondas me afastam dela
Eu sufoco. Eu me
afogo.
Preciso sair daqui de verdade
Onde fica a saída? A
saída de emergência?
Preciso fugir
Escapar dessa monotonia
constante
Voltar pra minha vida de antes
Já tô de saco
cheio
Isso acaba quando!?
Pause. Fast forward.
Finalmente. Depois de quase seis meses
Reencontrei o meu
caminho
Vejo a costa, meus pés tocam o fundo
Reconheço uma
paisagem familiar
Os tijolos vermelhos da minha casa
O
asfalto da minha rua, nossa bétula
Tudo é diferente dessa
paisagem de conto de fadas
Me sinto bem.
Pause. Rewind.
Imagina,
Cena de sonho
Uma floresta até onde a vista
alcança,
Formando com as montanhas um oceano verde
E a
neve, a espuma das ondas
Ah, seria tão bom poder mergulhar
ali
Nadar de novo e de novo
Explorar esse lugar mágico
Descobrir absolutamente todos os segredos
Tenho tempo de sobra
pra isso mesmo
Ainda mais sem wifi
Pause. Fast forward.
Todos os dias são iguais
É sempre a mesma rotina
Acordar, café da manhã, leitura, almoço, soneca
Mais leitura,
jantar, dormir…
O mesmo jogo de Zelda
Jogado e rejogado
sem parar
De novo e de novo…
Pela enésima vez
É sempre
a mesma coisa
Nada de novo, nenhuma mudança
Isso já tá
ficando chato…
Tela preta.