Um livro não exatamente no meio (introdução)
É bastante surpreendente que tenhamos nos encontrado. Sobre essas pessoas jovens, entre a infância e a idade adulta, fala-se frequentemente de sua desmobilização e, sobretudo, de seu isolamento. Já não saem para brincar lá fora, comunicam-se pelo telefone, cada uma em sua cápsula. E, no entanto, vieram ao nosso encontro, responderam ao nosso chamado.
A pandemia foi o cenário de sua adolescência; as telas, diante das quais os adultos lamentavam ver sua vida social se reduzir, foram de repente legitimadas pela lei como o único modo de comunicação com o mundo exterior, o único espaço de aprendizagem.
Em que se tornaram essas pessoas jovens? Qual é sua experiência do mundo social, daquilo que se pode chamar de “meio”, isto é, uma comunidade, uma família? Ainda se pode usar essa palavra, “meio”? Se cada um, cada uma vem de um lugar, no centro de que meio se situam?
Eram essas as perguntas às quais a equipe reunida por Simon Harel, professor de literatura no Departamento de Literaturas e Línguas do Mundo, queria responder. Como pessoas da área de literatura, nossas ferramentas não são questionários nem escalas de medição, e mesmo os métodos chamados qualitativos nos impedem de ultrapassar um certo discurso fixo, preso a clichês ou convenções sociais. Outro problema de grande porte se colocava, desta vez, para nós, pesquisadores(as)-criadores(as). Sem saber ainda quais respostas obteríamos — como é evidente —, não sabíamos sequer quais perguntas queríamos formular. Seria preciso tomar um tempo, o tempo de criar espaços para que a palavra pudesse se desdobrar.
Para começar, membros da equipe de pesquisa nos colocaram em contato com pessoas que haviam criado esse tipo de espaço que leva o tempo necessário. Essas pessoas eram Adis Simidzija, escritor, militante comunitário e fundador da organização Des livres et des réfugié·e·s em Trois-Rivières; Elizabeth Frómeta Mejías e Luis Darío Martos González, fundadora e fundador da organização Granjita Feliz em Havana, que conhecemos graças a Glenda Ferbeyre, doutoranda na Universidade de Montreal; e lideranças da comunidade indígena Guarani Mbya, com quem trabalha a pesquisadora Kelly Russo, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ao nos interrogarmos sobre o que o acontecimento planetário que foi a pandemia havia transformado na noção de meio para pessoas que encontram seu lugar no mundo — seu meio, por assim dizer —, ampliamos o olhar, assumindo o risco de nos dispersarmos nessa extensão difícil de delimitar que são as Américas. Um lugar que tem, de fato, um centro, mas cujo meio seria difícil de situar. O vínculo que mantêm esses(as) adolescentes que reunimos com seu meio muda necessariamente conforme o lugar geográfico de onde vêm e onde chegaram. Alguns desses lugares são, antes de tudo, uma interrogação dirigida à própria noção de meio.
E eis que suas vozes se cruzam, neste livro que não é totalmente um livro, e não está totalmente no meio dessas vozes.
Elas compartilham, ainda assim, um lugar, feito de textos escritos em Havana e em Montreal, de conversas gravadas em Trois-Rivières e de palavras pronunciadas na comunidade Guarani Mbya. Essas realidades bastante diferentes se cruzam aqui, em um livro sem papel, pensado e concebido para levar essas línguas e essas vozes de uma região a outra. Aqui se falam o espanhol cubano, o português brasileiro, a língua guarani e um francês encarnado por diferentes corpos e histórias. Seu formato baixável e econômico em dados, elaborado graças à criatividade da estudante Clara Grometto, com a colaboração de Federico Siragusa e Théo Louvet, busca lidar com desigualdades evidentes, como as dificuldades de acesso à internet — e até à eletricidade — das populações cubanas, mas não as apaga. Essa troca se encarna em uma realidade longe de ser ideal; tomou forma ao longo de intercâmbios que permanecem ainda assimétricos.
Ainda assim, quisemos construir de modo artesanal um livro de múltiplos lugares, um lugar ao mesmo tempo sem meio e que os multiplica.