Aux milieux/En los medios/Nos meios

F. Desjardins : Os cadernos

F. Desjardins : Os cadernos

Encostada na parede amarelo-sol do meu quarto, sentada na ponta da minha cama, consigo ver a estante repleta de cadernos. Essas paredes, cuja pintura não mudou há dezoito anos, me viram preenchê-las com meus dias e minhas dores ao longo do tempo. O primeiro deles, com a capa desenhada de caracóis multicoloridos, conta a inocência da minha infância, as ideias de uma menina de sete anos que vivia em um mundo de amor e tolerância, onde a cor da pele não importava mais do que a do cabelo e onde todas as pessoas do mundo eram amigas. Esses cadernos contam a história do meu encontro com minha primeira amiga, recém-chegada da Colômbia naquela época. No primeiro dia de aula, bastou um olhar para sabermos que seríamos inseparáveis dali em diante. O detalhe que nos aproximou: a semelhança das nossas jubas de leão, igualmente cacheadas as duas. Lembro especialmente que, naquele dia, ela me disse que eu parecia uma pipoca e que tinha me escolhido exatamente por isso.

Depois, meu grupo de amigas era formado por uma francesa, uma búlgara e uma jovem anglófona de traços asiáticos, cuja origem eu nem saberia dizer. Percebíamos as diferenças de sotaque e de traços físicos, mas apenas como curiosidades, nunca com a intenção de nos separar. O mesmo aconteceu com meu primeiro namorado, cuja pele era bem mais escura que a minha, mas isso não tinha importância, porque ele era simplesmente quebequense, assim como eu, e compartilhávamos os mesmos valores. Por isso não foi difícil explicar minha incompreensão e minha revolta ao aprender sobre o apartheid ou o Terceiro Reich, que acabavam de me apresentar a um problema novo: o racismo. Já naquela idade eu tinha gravada no coração a importância da justiça e da igualdade, e me indignava com qualquer obstáculo a esses valores. Ao pousar o olhar sobre o quinto caderno da fileira, pergunto-me o que mudou. Meus valores, certamente não. Talvez minha fé na humanidade.

No meu caso, a pandemia talvez devesse ter chegado antes. Talvez tivesse me poupado de ver meu quarto como um refúgio contra o bullying que sofri durante um ano. Essa pandemia teria me salvado daqueles meninos, certamente mal-educados, que consideravam as mulheres inferiores e sentiam prazer em atacá-las por sua sexualidade ainda nascente, chamando-as por todos aqueles nomes degradantes que eu não vou repetir. Pela primeira vez, eu percebia que a diferença podia ser um problema. Não a diferença física, claro, mas a diferença de educação, a diferença cultural. Eles não hesitavam em nos tocar sem nosso consentimento e em nos chamar de prostitutas o dia inteiro, como se tivessem um direito divino sobre nossos corpos. Só pude despencar ao ver esse abismo de valores entre eles e eu. Eles, que praticavam atos e diziam palavras que podem ser qualificadas como agressões sexuais, enquanto gritavam o nome de seu Deus, sem vergonha, para justificar seus atos. Já nem conto mais as vezes em que ouvi exatamente a frase: “Alá, eu vou te estuprar, sua puta imunda!”. Nós. Tínhamos. Quatorze anos.

O pior de tudo é que ninguém dizia nada. O fenômeno era comum demais. Para todo mundo, era apenas “o jeito como os meninos se comportam com as meninas”. Só que essa ideia é falsa. No Quebec, as mulheres são iguais aos homens, tratamos uns aos outros com respeito. Nenhuma religião ou diferença cultural deveria jamais impedir esse princípio. As mulheres não deveriam ter que se esconder ou se cobrir para merecer respeito. Somos iguais. E, ainda assim, é aqui que estamos. Preenchi aquele quinto caderno com minha angústia e meu desespero de um dia conseguir sair daquela situação. Foi então que a pandemia chegou, assumindo para mim a forma de uma salvadora que saberia me proteger do mundo e de seus habitantes. Passei o primeiro mês reclusa naquele quarto de aparência alegre, que contrastava com os pesadelos que me assombravam diariamente entre meus lençóis azul-claro.

Hoje tenho dezoito anos. Estou me reerguendo aos poucos. Mas, acima de tudo, não me escondo mais. Recuso-me a me esconder e a sentir vergonha. Não aceito mais certas diferenças. Não faço concessões quanto a esses valores. Vocês não vão mais me ver calada. Hoje, eu falo.

F. Desjardins