Aux milieux/En los medios/Nos meios

Gabriela Rigñack Peña : Droga

Gabriela Rigñack Peña : Droga

Secuelas de la COVID-19

Nada é igual; tudo mudou: meus pais, minha casa, minhas vontades, meus gostos… eu. Primeiro, tudo era bonito, tranquilo, cheio de vida; depois, tudo ficou cinza. O que um dia foi, escapava das minhas mãos: a vida como eu a conhecia e o encontro fugaz com a realidade. Eu me lembro do meu quarto ano: eu me animava em usar outro uniforme que não fosse o da bandana azul. Bandana vermelha! Que emoção! Eu me via grande, eu crescia; mais uns dois anos e eu iria para o ensino fundamental II; não havia interrupções; eu carregava a vontade de um grande futuro. Mas eu estava muito longe de imaginar que uma pandemia transformaria a minha vida. Uma pandemia?

— O que é isso, mamãe? — perguntei, com a incerteza comum dessa idade em que a inocência não chega a entender os perigos.

— É o surto de uma doença que se espalha por toda parte — ela me respondeu, de forma lacônica.

E, se antes eu não entendia, agora menos ainda. Mas as ruas começaram a ficar desertas, lugares foram fechados, fronteiras foram limitadas e o mundo começou a parar. Alheia à situação, eu achei que não era nada tão importante, porque, para acabar com aquilo, existiam médicos; que tudo seria mais fácil, simples, questão de tempo. O certo é que não houve mais escola, nem mais saídas, nem mais alegria. O universo se apagou e as vozes também. O dia a dia virou outra coisa. Máscaras, lavar as mãos o tempo todo, manter distância de um metro e meio dos outros. Pessoas conhecidas e desconhecidas indo embora para não voltar. Parecia um pesadelo. Parecia? Foi, na verdade. Inventei jogos, desenhos novos, mas presa; sem visitas e sem visitar ninguém, acreditando que o fim chegaria logo, mas durou muito tempo. Ficar entre quatro paredes, no começo, até vai; depois fica insuportável. Eu dancei, fiquei com vontade de caminhar e, por isso, eu caminhava dentro de casa, no quarto, repetindo para mim a todo instante “já vai acabar, já vai”. No entanto, parecia um labirinto, como o do Minotauro, onde teria de aparecer o mágico fio de Ariadne.

Os dias passavam e ficavam cada vez mais imensos; eram desesperadores, rotineiros, enquanto a doença vil fazia o que queria, deixando morte e dor pelo caminho e rasgando a vida que, como eu, um dia pensou que voltaria a pisar o chão da rua por onde antes caminhava.

Eu passava horas diante do espelho, que servia para me lembrar que eu ainda estava ali, sã e salva junto dos meus.

— Eu estou bem — eu dizia, e repetia — eu estou aqui, procurando barulho no meio de tanto silêncio.

Comecei a planejar muitas coisas: desde não me deixar engordar até ler pelo menos metade dos livros da estante da mamãe. Isso não foi possível, embora eu tenha lido alguns. Dia após dia, eu esperava que tudo mudasse. Eu sonhava em voltar a ver o mar, ver meus amigos, passear… ser feliz. O tempo passava com uma calma extrema e ficava mais difícil entender que o confinamento era inevitável, porque era a única maneira de evitar o contágio. Na verdade, eu estava recolhida, sufocada no meu próprio quarto, com um vazio interno profundo que estava se criando.

Não havia como sair: eu estava confinada, presa num poço sem fundo; eu estava enlouquecendo. Eu precisava de ajuda urgentemente, ou eu ia explodir.

— O que foi, mamãe? — eu suplicava.

— Por que você chora? — perguntava, com certo desespero.

— O que aconteceu, papai? Por que você está tão estressado? — e, para as minhas perguntas, a evasão foi a resposta segura por muitos dias.

— O que é que está acontecendo? — as expressões deles eram como novelas de perguntas e respostas, dessas que deixam você em suspense, como se um furacão de problemas estivesse carregando tudo.

Minha relação com meus irmãos foi muito curiosa: minha irmã, uma jovem muito amorosa e simples, estudante de medicina, inteligente; meu irmão, mais novo do que ela, mas o que estava acontecendo com o meu irmão? Por que todos se preocupavam com ele? Eles me deixavam de lado. Eles gostavam mais dele, não é? Ele era o filho preferido. A intriga me consumia na pandemia. Os dias frios, as coisas escondidas, não ditas. Já não havia saída: acabou. Eu precisava saber, sim ou sim. Uma noite, eu o ouvi falando sozinho, mas eu estava com muito sono, então me deitei para dormir, dando pouca importância. De repente, acenderam a luz: era meu irmão, parado ao meu lado, perguntando o que eu estava fazendo.

— Vou dormir — eu disse —, é tarde; dorme também — eu repeti.

Ele respondeu que queria falar comigo. Meu irmão nunca falava comigo. Eu me preparei para escutar. Ele se sentou na sala e começou a falar: dizia coisas sem sentido, coisas que, naquele momento, eu não entendia, mas que depois eu viria a compreender. Aquela noite de insônia durou muito; aquela conversa com o rapaz de 16 anos que dizia ser meu irmão… como esquecer? Foi aterrorizante. A voz dele, o rosto dele, os olhos… não eram os mesmos. Eu queria ir embora dali; eu queria dormir; o sono me vencia. Ele insistia o tempo todo com uma frase, a mesma frase que repetiria por quatro anos e que até hoje me atormenta. A luz do sol acariciava as janelas da minha casa; já tinha amanhecido. Será que aquele inferno nunca ia acabar? Mas chegou a pior parte. Parece. Já de dia, aquele jovem que eu não conhecia me fez sair para a varanda da casa — casa cujas paredes são testemunhas do que acontecia nos bastidores. Contra a minha vontade, eu saí, de mau humor. Os raios de luz eram intensos; eu cobria o rosto o tempo todo. Ele não parava de falar, até que chegou a uma conclusão, eu acho. Eu penso, eu analiso: talvez isso seja uma brincadeira de mau gosto, eu disse a mim mesma, naquele segundo de reflexão.

— Eu sou Deus — afirmou.

Essa frase me fez pensar de novo: a que ele se referia com aquela insinuação?

O cristianismo sempre esteve presente na minha vida, mas, mesmo assim, eu não fazia ideia do que ele estava dizendo. Eu apenas assentia, e isso pioraria as coisas. Eu estava atordoada; eu não tinha dormido nada…

Ele se sacudia e repetia, uma e outra vez: — Eu sou Deus.

Quase gritando, ele repetia. Ele me disse que não via pecado e que podia fazer comigo o que quisesse.

O meu “eu” daquela época não compreendia. Eu me afundei na minha própria angústia — lembranças que eu não quero que voltem, palavras que eu não quero lembrar: elas me tiram o fôlego e me ressecam a alma.

No confinamento, aconteceram coisas escuras e desagradáveis: notas graves e desafinadas, caos total, que deixam feridas insanáveis. Dor, inexistência, cicatrizes para a vida toda. Que dor.

Eu estava assustada. Eu via a imensidão do que estava acontecendo e não sabia como enfrentar aquilo, nem o que tinha acontecido naquela noite, nem o que aconteceria nas seguintes, nem sequer o que estava acontecendo de fato. Eu me sentia com uma faca na garganta, engolia saliva sem parar. Memórias passam como flashes e são sentidas como uma descarga elétrica. Do resto do dia, eu só me lembro vagamente de como levaram meu irmão — e, por fim, eu pude descansar.

Depois disso, eu… senti falta de cada momento em que fui feliz, porque algo na minha cabeça me dizia que eu precisava ser forte.

As luzes se acenderam e o pano subiu: senhoras e senhores, aqui está a história da minha vida.

Chegou o tão esperado visitante. Ele se rendeu num sono profundo, e só eu o observava de lado. O sol se punha e eu sentia cada vez mais medo, a cada segundo que passava e, ainda assim, eu não podia evitar a chegada da noite. Ao dormir, eu me sentia observada. Minha mente rabiscava garatujas para não pensar. Apesar de tudo, eu contava com a companhia da minha irmã. Porém, ela não estava ali. Eu tinha um pavor irracional, mas eu continuava vivendo para sonhar, porque sonhar é viver adormecido num mundo de realidade vazia.

O momento congelava. Eu corria, mas não conseguia chegar a lugar nenhum: a uma verdade, a uma resposta, a qualquer conclusão…

Eu comecei minha amizade com o medo. Eu precisava falar, mas as palavras não saíam da minha boca. Eu ria por fora com meus conhecidos, mas, no fim, eu já nem sabia se aquele sentimento era real.

A COVID avançava. Eu ficava mais triste e mais decepcionada e perdia o interesse por tudo. Bem… eu ainda me pergunto como eu estou aqui. A inquietação continuava: o que seria de mim? Minha casa já não parecia a mesma e, à noite, eu sentia medo. Eu comecei a interromper o sono dos meus pais, com qualquer desculpa, para tentar conciliar o medo.

Meu pai é um homem de personalidade e caráter fortes, mas isso não diminui sua gentileza e seu carinho. Ele é tranquilo, eu adoro estar perto dele. Por isso, eu ia para o lado dele na cama. Diferente do meu pai, minha mãe é nervosa, séria, reservada. Ela não é como a minha figura paterna, que eu tanto admiro. Ela diz que eu sou rebelde. Eu sou rebelde porque me recuso a ser escrava de regras absurdas impostas pela própria sociedade…

Quantas incógnitas havia nessa família. E cada vez aumentavam mais… No quarto dos fundos, ouviam-se murmúrios. O que estariam falando? Seria algo muito grande.

— O médico disse que ele era dependente de drogas — eu ouvi dizer.

— …?

— Ele já trazia isso no sangue há anos — disse meu pai, e depois perguntou à minha mãe com que idade a médica disse.

— Desde os catorze anos, provavelmente — disse minha mãe.

Do que raios eles estavam falando, papai e mamãe? Eu me perguntava.

Um espirro me traiu e eu tive de aparecer, como uma luz diante do som. Eu olhava fixamente para meus pais.

— Mamãe, o que é um dependente de drogas? — perguntei, e voltei a insistir — e por que a gente continua sem passear?

Como eles responderiam, eu não sabia. E eles também não. Pareciam procurar uma resposta “adequada”. Eu saí do quarto sem nenhuma dúvida resolvida. Embora eu amasse meu irmão, eu sentia… medo? Por que eu teria medo do meu irmão?

Violento… ele se tornaria violento? Aquilo já estava ficando preocupante. Por outro lado, os dias de pandemia seguiam passando e, somado à lista de desgraças, vinha mais uma: a nossa. Como se fosse uma zombaria cruel. Se a cada vez havia mais vítimas, pior era o confinamento, a dor, o sofrimento.

A pandemia de COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, surgido na China e espalhado pelo mundo em poucas semanas, em meses percorreu a geografia planetária. Milhões de contágios. Mais de um milhão de mortos poucos meses depois de surgir. Uma pandemia catastrófica, sequelas desconhecidas da doença. No início, nada de vacinas; depois, vacinas sem que se conhecessem seus possíveis riscos posteriores, como danos colaterais. O distanciamento e o isolamento social; o colapso dos sistemas de saúde em países ricos da culta Europa; a contração econômica; a paralisia do turismo e do movimento comercial mundial; tantas sequelas econômicas e sociais junto às da saúde humana. Enterros em valas comuns e criação acelerada de novos espaços para os mortos. Um impacto triste pelo mundo; também em Cuba. Estados Unidos e Brasil, focos de transmissão na América Latina. Eu e minha família sem contágio, uma pandemia terrível nos sacudindo, deixando sequelas indubitáveis, de impacto incomensurável. O que a vida nos reservará?

O hospital para onde o levaram era longe. Eu não o via e, para mim, era um alívio. Antes, ele já tinha estado em outros hospitais, por diferentes problemas de saúde: ele era um jovem com muitos padecimentos e sempre foi o centro da atenção familiar, o que me causava um sentimento de desatenção a mim, eu sendo a mais nova e me parecia que eles o amavam mais do que a mim, sem perceber, pela minha pouca idade, que talvez tivesse de ser assim, pois minha saúde física e mental era boa — ao menos naquele momento —; a dele, não. Ele estava “desajustado”.

Eu não me lembro… duas vezes! Acho que foram duas vezes que me injetaram as substâncias das quais dependeria a minha vida se, algum dia, eu me contagiasse com a doença mortal. Foi uma oportunidade. A vacina cubana, depois de muitos estudos urgentes com diferentes grupos quando ainda era só um candidato vacinal — primeiro com grupos de risco; depois com a autorização para idosos acima de 65 anos; depois para toda a população acima de 18; e, por fim, para os menores, idade em que eu estava — ai, que bom: assim eu poderia ver meus ditos colegas de classe. E chegou o dia. Um dia sonhado: sair para a rua, ver a escola, ver meus colegas, lembrar o tempo passado, as faces que eu guardava escondidas na mente. Aquele pequeno, mas grande raio de esperança me invadiu. Minha grande aflição era:

— Como eu falaria de novo, depois de tanto tempo? — a dúvida martelava.

É triste ver suas amigas e seus amigos distanciados, com máscara cobrindo o rosto, sem dar um beijo nem apertar a mão, sem tocar nem sentir nas pontas dos dedos a pele do outro, nem ver o sorriso ou a expressão do rosto. Não exteriorizar a alegria, nem receber a mensagem de afeto do outro por meio do abraço. Com poucos eu conversei. Havia uma barreira dos educadores, do pessoal de saúde, das famílias. Havia alegria e tristeza. Uma mistura estranha de sentimentos.

— Vanessa! — eu chamei a amiguinha da sala.

Um gesto de cumprimento à distância, e o braço da mãe como barreira para impedir a aproximação, e uma resposta monossilábica:

— Gabriela!

E assim se repetia com os demais, enquanto entrávamos no prédio da escola, transformado em posto de vacinação. A enfermeira recebia você, anotava seus dados e preenchia o cartão de vacinação. Depois, você passava pelo médico: perguntas indo e vindo, histórico de doenças, medição de pressão, temperatura, etc. Depois, a picada: o momento de preparar a seringa e ver a agulha entrando no frasco que continha a formulação vacinal.

— Levanta a manga — diz a enfermeira, ao mesmo tempo em que esteriliza a pele e, em seguida, a agulha entra sem incômodo algum. — Ok — ela diz. — Pronto, você já está vacinada.

Tudo organizado e rápido. Era a primeira dose. Todos nós tínhamos um freio naquele dia: cumprimentos à distância, e o temor escurecendo a atmosfera.

— Marcos! — a resposta dele veio com um gesto, lacônica.

— Gabriela! — e, com o gesto, um beijo jogado com a mão, desde a boca coberta pela máscara.

Assim, mais ou menos, as cenas se repetiam. Mesmo quando estávamos sentados esperando, em cadeiras separadas por mais de um metro e meio, tanto em filas quanto em fileiras, o ambiente era pavoroso.

— Leyna! — eu chamei uma boa amiga, com quem eu conversava por telefone várias vezes ao dia, mas a diretora e outro adulto não permitiram a aproximação.

— Vocês não podem se aproximar; precisam ficar distantes e em silêncio — disse a professora.

Eu não queria parecer hipócrita ou como se eu não me importasse, afinal, ainda eram meus amigos. Mas de alguns eu nem lembrava o rosto. Bem… de alguns deles. E pode ser que não tenha passado tanto tempo assim para eu falar desse jeito, mas eu estava tão ocupada lutando por dentro, com o meu debate emocional, que talvez, só daquela vez, eu tivesse esquecido.

Foi minha primeira saída: a primeira dose da vacina Abdala, com a qual fui imunizada. Foi meu primeiro reencontro com meus colegas e com a escola. Parecia que tinham passado anos, quando na verdade não foi assim.

Eu não tinha ideia do que eles faziam. Deus sabe se eles estavam bem, ou se eram só ideias minhas. Espero que nem todos tenham passado por tantas desgraças. Na minha família, não houve doentes de COVID-19. Nós sofremos a sequela de uma doença cruel maior, silenciosa também, mas que destrói a capacidade de ser. Eu não sabia quantos colegas tinham adoecido, ou seus pais e familiares; nem sabia dos mortos, nem das condições de vida deles como sequela da pandemia e da situação econômica que, dia após dia, ficava mais sufocante no mundo e muito dura em Cuba para cada família. Tantas coisas me atingiam. Acho que eu estava doente de tanto pensar.

Eu não sabia o que eles faziam. Deus sabe se estiveram bem, ou se foram apenas ideias minhas; eu espero que nem todos tenham passado por tantas desgraças. Na minha família, não houve doentes de COVID-19; sofremos a sequela de uma doença cruel maior, silenciosa também, mas que destrói a capacidade de ser. Eu não sabia quantos colegas da escola tinham adoecido — ou seus pais, ou outros familiares —; nem sabia dos falecidos, nem das condições de vida deles como sequela da pandemia e da situação econômica que, dia após dia, ficava mais sufocante no mundo e muito dura em Cuba para cada família. Tantas coisas me golpeavam… acho que eu estava doente de tanto pensar.

Que curioso era ter aula pela televisão. Não era a mesma coisa. Mesmo que fosse mais cômodo, continuava sendo igualmente entediante. Eu nunca assistia, para falar a verdade; para mim, eram simples teleaulas. Eu era inteligente e, apesar de lembrar com desgosto da professora que eu tive até o início da pandemia, eu confiava mais em mim e nas minhas leituras do que nas teleaulas. Meus pais nem sabiam que eu não prestava atenção nelas. E olhar do ponto mais alto da minha casa para a rua era a única forma de eu me sentir um pouco mais livre.

Eu ouvia muito falar de vacinas. Eu não entendia disso, e nem era um tema me interessava. A partir da primeira dose, meu pensamento mudou. Eu tinha coisas mais importantes na cabeça, como fortalecer minha relação com minha irmã. Às vezes, eu achava que eles não me amavam; hoje eu sei que minha irmã era apenas uma adolescente frustrada que, assim como eu, queria que tudo isso terminasse. Eu tenho um apego muito grande a ela. Acho que, naquele momento, era preciso deixar as diferenças de lado. Apesar de tudo, ela era o meu lugar seguro.

Que genialidade do país criar vacinas! De todo modo, era o mais necessário. Sim, naquele momento eu não tinha ideia da importância da vacina. Eu não sabia nada sobre isso, exceto as vacinas que, desde muito pequena, todos os anos, aplicavam em nós ou que precisávamos tomar. Eu me lembro da “vacina em caramelo”. Sim, as crianças de Cuba são imunizadas desde cedo contra diferentes doenças, que, muitos anos atrás, constituíam uma causa importante de mortalidade infantil.

A importância da vacina contra a COVID-19 estava no fato de Cuba estar impedida de adquirir vacinas por causa das medidas e sanções impostas ao comércio com a ilha pelos Estados Unidos. Eu não conhecia com exatidão, mas, em Cuba, até as crianças sabem do bloqueio contra o país, mesmo sem levar em conta todos os detalhes e circunstâncias em torno do tema. O país, por ter poucos ingressos econômicos e falta de divisas, não podia comprar nem as vacinas chinesas, nem tinha acesso às vacinas da Organização Mundial da Saúde. Só os cientistas cubanos podiam buscar uma solução para um problema de saúde desse tamanho, muito complexo nas condições econômicas da nação. Foram quatro os candidatos vacinais, todos com simbolismo patriótico: Soberana I, Abdala, Mambisa e Soberana II. Embora continuassem os contágios e as mortes, as vacinas foram baixando os números de casos reportados e, com a introdução de novas cepas do vírus, também passaram a ser usadas de forma geral Abdala e Soberana I, além da Soberana II e da Soberana Plus. Resultado em pouco tempo: controle da pandemia, diminuição de contágios, e as mortes por esses casos caíram rapidamente. As vacinas cubanas começaram a ser exportadas a outras nações e chegaram à Itália, Venezuela, Vietnã, México e a outras nações do Caribe e a outras regiões do mundo. Foi genial contar com uma vacina própria e acabar com os boletins diários com números inchados de contagiados e falecidos.

E os dias seguiam, seguiam. Falar por telefone já não era divertido. Eu ficava queimando por dentro só de pensar em estar de novo junto do meu irmão. Acho que, enfim, quando eu abri os olhos, foi graças ao celular, porque os livros que eu lia naquele tempo não traziam tanta informação sobre a situação atual do meu irmão. O que é um dependente de drogas? Essa era a única pergunta que me corroía e, embora não fosse exatamente da minha conta, eu queria saber.

Pisar no asfalto foi a melhor sensação. E eu só fui até a esquina. Assim eu começaria a retomar meu ano escolar. Eu tinha me acostumado tanto a ficar em casa que acordar cedo não era uma opção, mas um desafio. Às vezes, eu começava a ter pesadelos e o sono ia embora. Isso foi ficando mais frequente, até o ponto em que o brilho do sol batia nos meus olhos e eu já não queria mais a minha cama. Todas as noites eu terminava no sofá. Eu nunca deveria ter pensado tanto. Pensar demais nunca foi uma boa decisão. Eu não me sinto traumatizada, mas, do mesmo jeito, eu preciso ficar bem e eu não consigo.

O primeiro dia de aula foi sufocante. Todos, como eu, sabiam que todos os sorrisos e cumprimentos eram falsos. Eu comecei a odiar ainda mais o retorno quando iam me buscar tarde. Às vezes, três ou quatro horas depois do horário normal de saída, eu era a única menina na escola inteira, e eu não tinha o direito de reclamar de nada. A resposta era sempre a mesma: “estávamos ocupados”. Acho que foi por isso que eu me desiludi tanto. Eu não consegui coisas que eu queria, que eu podia conseguir. Até uma divisão simples explodia a minha cabeça. Eu nunca fui de notas baixas. Suponho que eu me esforcei tanto para melhorar no que eu não era boa que deixei de lado as coisas em que eu era a melhor. O sentimento mais alegre era quando me apontavam porque sabiam que eu é quem ia ganhar. Eu posso dizer que, em muitos aspectos, as coisas melhoraram com relação à COVID-19. Mas, deixando isso de lado, o benefício que aquilo me trazia era simplesmente maravilhoso. As aulas de arte, ou de preparação, acho que era o meu maior sonho: ver meus futuros quadros numa galeria. Mas nem tudo dura para sempre e, apesar do talento, o que me faltava era a dedicação dos meus pais. Eu não vou culpá-los. Ninguém tem culpa. Só não era o meu momento. Nunca foi.

Eu não vou negar o fato de que os professores influenciam o desenvolvimento emocional de uma criança. A gente ia para a escola para ser tratado como soldado. Às vezes, as coisas passavam do limite e terminavam em maus-tratos. As folhas de cópia que eu tive de fazer, se eu quisesse lanchar na hora do recreio, eram incontáveis. Eu perdi a vontade de rir. Eu não consigo falar mais nada do meu quarto ano: um livro não seria suficiente para contar tudo. E a compreensão que os adultos dão às crianças e aos jovens também não era das melhores: “pessoa grande, problema grande; pessoa pequena, problema pequeno”. Só me restava calar e seguir em frente, enquanto os dias passavam. Com meu irmão de volta em casa, eu fui percebendo a mudança em sua atitude desinteressada. Acho que todo mundo acaba ficando igual quando cresce. Eu esperava nunca crescer. E assim eu entrei no meu quinto ano. Nada mudou: a gente continuava usando o mesmo protocolo de segurança, mas o trato com as crianças era diferente; havia mais calma, mais compaixão. Foi ali que eu conheci a primeira pessoa que mudou a minha vida: a professora que virou o meu baú de segredos — não só o meu, mas o de todos os meus colegas. E, embora a gente não se apavorasse com a ideia de ser castigado, a gente não confiava muito. Era só esperar. As coisas foram se desenrolando bem com aquela professora. Foi a melhor fase na escola. Aquela pessoa foi mais do que especial, mas… sempre tem um “mas”, sempre tem algo que se interpõe entre mim e o êxtase.

O tempo passou depressa e eu já estava no 6º ano, com o peso de algumas coisas que eu ainda calava. Eu não sabia o que era crescer. Eu estava no meu momento de plenitude, e algo mais me perturbava. Fui perdendo hábitos, costumes. Minha família perfeita tinha desmoronado. Aconteceu e não me contam… Sendo a autora da minha própria história, eu não quero assumir papel nenhum e seguir escrevendo em vão.

Era eu contra o meu próprio mundo. Comecei um novo ano. Acho que essa é a idade em que surgem interesses, em que a gente encontra um desfecho com outras pessoas. E, apesar de ter esse tipo de interesse por alguém, eu seguia lembrando a sombra da minha casa e tudo o que habita nela. Se eu chegasse ao fim deste ano sem a decepção de um amor numa adolescente entristecida, já não seria a minha história. E, se havia algo que descrevia esse sentimento, era a carta que eu lhe escrevi.

Eu deixei umas palavras debaixo da sua porta. Não sei se eram cartas; talvez fossem poemas. Mas eu deixei umas palavras debaixo da sua porta e, mesmo que você não as leia, vai se lembrar de mim, porque eu coloquei ali tudo o que senti naquela vez tão fria, enquanto eu dormia me sentindo junto de você. Vou me despedir aqui, e da solidão escura, porque a minha pele sempre vai guardar o doce néctar do seu aroma. A verdade, por si só, sempre vai chegar, e todos sabemos que, no fim, ela será déspota e crua. Eu vou ver a sua alma partir e é melhor dizer adeus, sabendo que nem eu queria deixar você ir. Na margem de outra vida, eu vou encontrar de novo os seus olhos, me vendo no reflexo complicado de tudo o que eu um dia fui…

Eu não queria colocar um ponto final. Mas ele tingiu a minha folha com tinta preta e manchou a história com desdém. E eu não consigo odiá-lo. Só odeio o fato de não conseguir odiá-lo. Mas isso doeu mais em mim do que tudo o que estava acontecendo.

Soma-se à dor mais uma discussão — e volta a acontecer. Ele volta a se drogar e volta para trás, para o fundo do abismo. Faz frio.

Eu mesma misturei tudo. Eu me sinto pequena e, enquanto a escuridão me engole, eu sigo aqui, olhando para o passado, vivendo no meu presente. A minha felicidade teria sabor doce? A minha tinha olhos bonitos e, enquanto vai embora dizendo adeus, eu fico perplexa e estática. Eu não vou apagá-lo de mim, como ele está me apagando da vida dele. Mas a minha continua. Outro ano perdido. Já é dezembro. Outro ano perdido e já não há pandemia, mas a verdadeira doença é a minha casa, e ela está me matando.

Eu sou uma filha ruim? Eu gostaria de ser melhor. Eu não vou reclamar dos meus pais; eles não têm culpa. Outra internação se faz necessária para que ele retome a vida. Eu não tenho uma solução; ninguém tem. Agora, mais do que nunca, eu sinto que devo ir embora. Mais um mês sozinha, mas, olhando do outro lado, há problemas que valem a pena enfrentar, só que nem eu, nem o problema, valemos a pena. Então eu vou me deixar ir.

Fim?

É o fim do começo. E, tentando retomar o vínculo que ainda resta, quanto mais o tempo avança, mais o temor aumenta. E, se a alegria me alcança por outro ângulo, eu ainda tenho a minha família.

Gabriela Rigñack Peña

Gabriela Rigñack Peña frequentou o círculo infantil Los Zapateritos, no município de Guanabacoa, província de Havana, onde mora, e recebeu toda a educação formal prevista no programa de formação dessas instituições educacionais da primeira infância, sendo uma menina alegre e sempre disposta.

Cursou do primeiro ao sexto ano na escola primária Quinto Congreso, com bons resultados acadêmicos, mas com muitos professores devido a desajustes no quadro docente, além de ter recebido aulas de uma professora que desajustou as crianças do 3º ano por seus métodos antipedagógicos, e que, ao final do 4º ano, abandonou o magistério, para sorte delas. Com uma nova professora no quinto e no sexto ano, concluiu o ensino primário; nele, além dos problemas no processo de ensino-aprendizagem, enfrentou, aos 8 anos, as condições impostas pelo distanciamento e pelo isolamento social da pandemia de COVID-19 em Cuba e no mundo.

Em sua casa, foram cumpridas todas as medidas de biossegurança e de distanciamento e isolamento social. Ninguém adoeceu: nem a menina, nem os adultos, nem a avó que, por ser idosa, tinha um nível rigoroso de cuidados…

Seu núcleo familiar de seis pessoas vivia em harmonia e felicidade, com um nível de estabilidade emocional até o início da pandemia, quando o confinamento em casa provocou alterações no mais jovem, irmão de Gabriela.

Ninguém adoeceu de COVID-19; mas, como sequela desse vírus, a entrada do adolescente nas drogas mudou o estilo de vida no lar e na família.

A vida mudou para todos e deixou Gabriela numa situação instável, com dor e um trauma psicossocial e afetivo.

Ela conta a história, que um dia será romance, nascido da dor e da profunda convicção da família de reverter esse flagelo, que a assistência médica tentará resolver. Daniela, uma guerrilheira, vencerá a dor.