Aux milieux/En los medios/Nos meios

Algumas sextas-feiras à noite

Algumas sextas-feiras à noite

Nas sextas-feiras à noite, às dezoito horas, jovens adultas e adultos, ou grandes adolescentes, juntavam-se a nós, com os olhos um pouco cansados da semana, numa sala de aula vazia do Collège de Bois-de-Boulogne, no bairro Ahuntsic, em Montreal. Tinham entre dezessete e dezenove anos e haviam respondido a um chamado para escrever.

Nada os obrigava a estar ali: nenhuma compensação, nenhum ponto a mais no boletim, nenhum crédito acrescentado para a conclusão do curso. E, aliás, não eram estudantes da área de artes e letras, como talvez se pudesse imaginar. Não havia, portanto, nenhum incentivo além daquele convite que lhes havia sido enviado: vir escrever conosco.

As oficinas no Collège aconteceram entre 2023 e 2025, com alguns encontros a cada estação do ano. Eu acolhia as e os participantes junto de Arianne Chagnon, professora de francês do Collège, que tornou toda a iniciativa possível fora de seu horário de trabalho, com um bom humor inabalável. Ela conhecia bem essas e esses estudantes, mesmo não tendo dado aula para todas e todos. Sabia da pressão que pesa sobre elas e eles nesses anos em que, recém-saídas e saídos do ensino médio, precisam escolher o rumo de suas vidas futuras: ciências puras, ciências humanas ou programas técnicos. Uma encruzilhada que deixa pouca margem para o desvio.

Não se tratava simplesmente de “fazer os e as jovens falarem” sobre o que havia sido “crescer em tempos de pandemia”. Havia, claro, uma questão de pesquisa, bem formulada para os órgãos financiadores. O projeto tinha inclusive um nome, que serviu como nosso cartão de apresentação nos lugares onde entramos: “Questões transculturais e intergeracionais nas narrativas de pessoas adolescentes no contexto da COVID-19”, um nome que tivemos de pronunciar no início desses encontros, por razões entre outras burocráticas, apressando-nos logo em acrescentar: “mas não se preocupem…”

Então pegamos a questão por outro lado. Um lado suficientemente informe para que pudesse escapar de nossas mãos e passar para as suas.

Vocês vieram, nas sextas-feiras à noite, às dezoito horas; não sabiam exatamente no que estavam se metendo, a que estavam dizendo sim.

Leram textos conosco e receberam propostas de escrita.

Vocês se instalavam num canto daquela sala de aula; às vezes era uma sala onde já haviam tido aula, mas ali era outro contexto: vocês tinham um tempo só de vocês para escrever sem objetivo, sem avaliação, sem nota. Havia uma proposta a partir daquelas leituras: escrever sobre um quarto, escrever sobre a fronteira, escrever sobre o choque das línguas dentro de si, a voz das e dos ausentes, as vozes interiores, a voz do não humano.

Às vezes vocês seguiram a proposta — afinal, foi isso que lhes ensinaram: seguir as regras — e às vezes a evitaram, fingiram tê-la compreendido mal; e outras vezes a viraram de cabeça para baixo. Escreveram, em seus textos, aquilo que talvez não teriam dito, não naquela sala, não durante as horas de aula. Era sexta-feira à noite, afinal.

A única exigência incontornável daquelas sextas-feiras à noite era compartilhar os textos em conjunto. Às vezes, algumas pessoas pediam que alguém lesse por elas. Mas seus textos sempre foram compartilhados. Colocar a própria escrita à prova diante das e dos outros; ouvi-los dizer algo que talvez vocês mesmas e mesmos não tivessem percebido em seus próprios textos.

Algumas e alguns voltaram uma vez, depois duas, depois quatro. Vimos sua escrita, inicialmente contida, se expandir. Dissemos a vocês: aqui, vocês podem se abrir. Não precisam ser aquilo que esperam de vocês. Houve momentos em que escreveram com uma voz que não sabiam possuir. Às vezes, a escrita chegou ao grito. Algumas e alguns, ao voltar para casa, leram seus textos para a mãe, para o irmão. Mas muitos textos não voltaram para casa. Simplesmente partiram para o mundo.

Clara Dupuis-Morency

Clara Dupuis-Morency é escritora e professora de criação literária na Universidade do Quebec em Montreal desde 2026. É autora de Mère d’invention (2018), Sadie X (2021) e Désert Désir (2026). Ela pratica a pesquisa-criação e, desde 2022, desenvolve oficinas de criação literária com diferentes grupos comunitários, especialmente em torno de questões do cuidado, da doença e do luto. Foi coordenadora científica do projeto que deu origem a este livro.