Aux milieux/En los medios/Nos meios

Xondaro e xondaria rembiapó

Xondaro e xondaria rembiapó

Juventude Guarani Mbya, Território e Criação Coletiva

Xondaro e xondaria rembiapó, em língua Mbya Guarani quer dizer “o trabalho do(a) jovem guerreiro(a)”. Rembiapó também significa sabedoria, porque quem é jovem tem sabedoria, né? Assim como os adultos. É uma sabedoria de espírito, corpo e mente. Por isso, em nossa cultura, esse é o momento em que a caminhada Guarani realmente começa, porque a juventude já assume responsabilidades e desempenha diversas funções na comunidade. São guerreiros e guerreiras que, desde cedo, contribuem com sua sabedoria para a nossa luta. Mas nos últimos tempos, temos nos preocupado muito com os nossos jovens. Eu sei que a palavra “jovem” não é nossa, é dos não indígenas, os juruaTermo utilizado para designar as pessoas não indígenas, especialmente os brancos. No texto, aparece no plural e se refere ao mundo exterior, às expectativas e à lógica não indígena que muitas vezes pressiona os jovens, mas eu uso para que vocês possam compreender. (…) Acho que esse projeto, aqui na aldeia, os encontros entre os jovens, fez com que eles se sentissem parte de um coletivo. Veio pra fortalecer os Xondaro e Xondaria. Eles passaram a conversar mais entre eles para compartilharem seus pensamentos, para relaxar corpo e mente. (…) Ao participarem de diferentes grupos e atividades, os mais jovens podem aliviar o peso das cobranças do estudo, do trabalho e das responsabilidades da família e da comunidade, descobrindo que não estão sozinhos em seus medos e preocupações.1

Abrimos este texto com as reflexões da liderança da comunidade TekoaComunidade, aldeia-território; literalmente “lugar onde se vive segundo o modo de ser”. Mais do que um espaço físico, é território espiritual, político e relacional Ka’aguy Ovy PorãKa’aguy = mata/floresta; Ovy = azul; Porã = bonito(a), bom, Aldeia Mata Verde Bonita (Maricá, Rio de Janeiro), Miguel Verá Mirim, quem foi o principal parceiro no desenvolvimento do projeto de extensão comunitária “Território, memória e diálogos interculturais” (2023-2025), financiado pelo CRSH-Canadá, através de convênio realizado a Faculdade de Letras e Artes da Universidade de Montreal, sob coordenação de Simon Harel e Clara Dupuis-Morency.

O principal objetivo do projeto foi construir uma agenda de atividades que permitissem o fortalecimento da juventude Guarani MbyaUm dos subgrupos Guarani; indica pertencimento étnico, modo de ser, língua e identidade. Mbya reko é o modo de ser Guarani Mbya. Para isso, utilizamos a metodologia de roda de conversa, priorizar a construção de espaços de encontro entre os próprios jovens e lideranças comunitárias e representantes da universidade, onde pudessem discutir, refletir e desenvolver atividades coletivas a partir do tema da saúde mental e do bem viver Mbya.

Ao longo de 2024 e de 2025, realizamos 20 encontros com cerca de 15 jovens, xondarosJovem guerreiro (masculino). Não se refere a guerra, mas à postura ética, corporal e espiritual de responsabilidade, proteção, disciplina, alegria e sabedoria e xondariasJovem guerreira (feminino). Assim como xondaro, refere-se ao papel social e espiritual que jovens assumem dentro da comunidade, indicados(as) pela comunidade, com o objetivo de construir uma relação de confiança entre nós e criar novos espaços de escuta, troca e aprendizado também entre eles(as). Parte dessas conversas foi registrada e transcrita, e a partir da seleção dos próprios jovens, esses fragmentos de texto serão futuramente publicados em versão bilingue (português e guarani Mbya).

Todos os encontros aconteceram na Tekoa Ka’aguy Ovy Porã e buscaram possibilitar um espaço seguro de valorização e troca de experiências, onde cada xondaro ou xondaria pudesse compartilhar suas perspectivas sobre identidade Mbya, suas inquietações, desafios para o bem-viver indígena e suas vivências dentro e fora da aldeia.

Durante essas conversas, ficou evidente que essa geração transita entre dois mundos, com valores e exigências opostos. De um lado, a escola, a cidade e as redes sociais, que criam novos laços de pertencimento, mas impõem um ambiente individualista, repleto de preconceitos e incapaz de discutir desigualdades e a tentativa constante de assimilação cultural. De outro, a vida na aldeia, onde são cobrados(as) desde muito jovens, a agirem com humildade e sabedoria para assumirem responsabilidades coletivas como xondaro ou xondaria – “os mais velhos dos mais novos” – e assim, garantirem a existência das futuras gerações. Mas essas experiências “da juventude Mbya” são também constantemente (re)significadas por aqueles(as) que a vivem.

Leticia Sabedoria

  1. Texto transcrito, editado e depois revisado sob a supervisão de Miguel Verá Mirim, Tekoa Ka’aguy Ovy Porã, em 25 de março de 2025.↩︎

Kelly Russo

Kelly Russo é pesquisadora e professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas com Povos Indígenas, Interculturalidade e Educação (NEPIIE). Atua há mais de uma década em parceria com comunidades indígenas do estado do Rio de Janeiro, em especial com o povo Guarani Mbya de Mata Verde Bonita, onde este projeto foi desenvolvido.

Miguel Verá Mirim

Miguel Verá Mirim é um dos líderes guarani mbya, membro da aldeia Mata Verde Bonita (Maricá/RJ). Atua em processos comunitários de fortalecimento cultural, de registro da memória coletiva e de participação dos jovens. Desenvolve ações ligadas à comunicação comunitária, ao audiovisual e à criação de espaços de fala e de protagonismo para os jovens guaranis, contribuindo assim para a continuidade do mbya reko e para a articulação entre diferentes aldeias da região.

Maria Martinha Guajajara

Martinha Mendonça é indígena do povo guajajara, educadora e atualmente diretora da escola indígena localizada na aldeia Mata Verde Bonita. Militante da causa indígena, é responsável por diversas iniciativas voltadas ao fortalecimento da educação escolar indígena no município de Maricá. Atua em diálogo contínuo com lideranças, professoras e professores e famílias guaranis, contribuindo para a consolidação de práticas interculturais na rede municipal.

Tanya Samaniego

Tayna Samaniego é Guarani Nhandeva, vive e trabalha como professora na comunidade de Mata Verde Bonita, em Maricá. Ela é uma das jovens lideranças dessa comunidade e atualmente está concluindo o curso de Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Dedica-se a pesquisas sobre as juventudes indígenas, a educação escolar indígena, as políticas educacionais e os processos de retomada identitária.