Palavras de xondaro e xondaria
Karaí Mirimmirim = pequeno; pode significar “pequeno sábio” ou jovem com responsabilidade (Edilson): O que a sociedade de fora espera de mim? Eu penso que, por eu ser indígena, o que esperam de mim é que eu mostre minha cultura, não é? Mas eles têm uma imagem diferente do que realmente é nossa cultura… Existem muitas outras coisas, mas para mim o principal é isso.
Karaí Mirim (Bernardo): Eu gosto de escrever, mas não pratico muito, porque somos mais da oralidade, não é? Mas eu sei que preciso estudar, que preciso praticar minha escrita, porque quero ir para a universidade… Gosto de engenharia civil, direito ou medicina, e acho que essa vontade de estudar nunca vai desaparecer, não é? E eu vou conseguir. Mesmo que a primeira tentativa não dê certo, o importante é que… eu sei que desistir não é uma opção! E vamos para a luta, porque sem luta não se consegue nada, não é?
Karaí Yappuanome ritual específico (Gilson): Neste ano, vivi muitas dificuldades relacionadas à saúde mental, então quando esse projeto chegou, foi como um novo recomeço para mim, porque toda terça-feira eu saía e isso mudava meus pensamentos. Eu já não saía mais de casa, nem para jogar futebol. Esse projeto me devolveu a vontade de sair, jogar bola, rir com meus primos, porque é muito importante ter vontade de sair de casa, encontrar outras pessoas, conversar… Isso realmente me fez muito bem.
Wera Xunu (Nísio): Fiquei muito feliz de terminar a escola, o terceiro ano do ensino médio… Ainda não sei se vou para a universidade, mas sei que vou trabalhar para não ficar sem fazer nada. Tenho esposa e três filhas. Na aldeia, sei carpir e fabricar zarabatana.
Karaí Mirim (Edilson): Tenho 23 anos, mas ainda estou no ensino médio, porque na nossa cultura, ser alguém na vida é ter uma família, trabalhar e trazer alimento para sua família, não é? Plantar e fazer essas coisas… E hoje eles veem que já não é mais como antes. Por isso hoje as pessoas mais velhas falam muito do nosso futuro. Que precisamos disso. Que devemos fortalecer nossos xeramõi, as pessoas mais velhas, entende? Porque eles precisam disso e nós somos o futuro, não é? O futuro, as futuras lideranças, não é? Hoje, para ser liderança, você precisa entender de política, português, educação. Não é mais como antes. Hoje você precisa estudar e aprender política, porque hoje em dia tudo passa pela política. E é isso que eles pensam sobre nós, entende?
Geovani Da Silva : No começo, eu era tímido na escola da cidade. Não converso muito bem com os jurua na escola… Acho o comportamento deles estranho: eles gritam, xingam, fazem muito barulho! É difícil estar com eles… Prefiro estudar com os jovens daqui da comunidade.
Para YryYry pode significar “água corrente” ou remeter ao fluxo/renovação, variando conforme as tradições da família. Para pode se referir ao “rio” ou estar associado à linhagem/clã dependendo do contexto familiar (Letícia): Existem indígenas que saem da comunidade para estudar ou viver fora e que já não são mais considerados indígenas. Mesmo tendo sangue indígena, não é? Sofremos por causa disso. Porque você tem uma responsabilidade com o futuro, mas para os mais velhos é mais difícil entender… Mesmo sendo indígenas, também precisamos conhecer o mundo, não é? Não é “jogar nossa cultura no lixo”, mas isso é necessário, não é? Porque hoje tudo conta: os estudos, a universidade…
Para PotyPoty significa “flor”. Para pode se referir ao “rio” ou estar associado à linhagem/clã dependendo do contexto familiar. (Tayna): E eu penso que continuar estudando, ir para a universidade, também é uma forma de trazer um certo fortalecimento para a comunidade. Hoje, estar na universidade é importante. Continuar os estudos é importante. Mas não é apenas por si mesma, pelo menos não é apenas por mim, mas por qualquer território em que eu esteja, por qualquer território com o qual eu tenha vínculo, para poder fortalecer, para poder somar na luta indígena. Para mim, esse é o sentido.
Karaí Tataendy (Fabrício): Eu penso que existem desafios para um jovem que vive fora da comunidade e outros desafios para quem vive dentro dela, não é? Fora, um desafio para o jovem é continuar estudando, porque há dias em que você se sente realmente cansado, não é? E isso acontece com todos os jovens, não é? A relação com os jurua é difícil, a rotina da escola… Dentro da comunidade, o desafio para um jovem é ter que trabalhar, ajudar a família, construir a casa, cuidar das coisas da comunidade, não é? Então esses também são os desafios dos jovens daqui.
Para Yry (Letícia): Acho que meu sonho é me tornar advogada para ajudar meu povo. E ajudar em muitas coisas, não é? Porque vejo muito sofrimento em todas as comunidades, que realmente precisam de um advogado ou de uma advogada, não é? Porque os jurua são perigosos, não é? E se não houver uma pessoa indígena como advogada, eles vão roubar de qualquer maneira, entende? E isso vai se comprar com dinheiro, não é? Vejo muito isso, vejo isso desde pequena. Vi minha família sofrer porque os jurua queriam tomar nossa terra. Vi meus tios terem que enfrentar isso apenas com arcos e flechas, enquanto os outros estavam armados. E foi aí que pensei: “Preciso estudar. Preciso me formar para ajudar minha família!”. Não apenas minha família, mas todos os meus parentes, de outros lugares também. E foi por isso que pensei em me tornar advogada, e vou realizar esse sonho.
Karaí Mirim (Edilson): Acho que hoje é mais difícil para nós estarmos juntos, passarmos tempo juntos, conversarmos… Antes, os jovens caminhavam mais juntos, não é? Não existia essa coisa de querer ser melhor que o outro… Porque hoje o mundo influencia muitas coisas. É preciso mais humildade. A humildade faz muita falta hoje… Mesmo entre os jurua, não é? E isso afeta muito os jovens também. Então acho que precisamos de mais espaços para os jovens, para chegar, jogar, se distrair… Ser felizes, entende?