Voz em surdina
Você não escolheu seus pais
Você não escolheu sua família
Você não escolheu viver aqui, no deserto do esquecimento
Você
não escolheu este continente
Para você, não estava garantido
que um dia, sendo pequeno, você se tornaria grande
É assim que o grupo de música franco-argelino HK & Les Saltimbanks entoa as primeiras palavras de sua canção Ta récompense (Sua recompensa), que relata a trajetória de crianças refugiadas que se veem obrigadas a deixar seus países na esperança de uma vida mais digna. Uma esperança cultivada e, sobretudo, imposta pelos pais, para o melhor e para o pior. Essa canção me acompanha com frequência nos meus momentos de devaneios nostálgicos sobre o que teria sido minha vida se minha mãe tivesse escolhido ficar na Bósnia-Herzegovina, país marcado pela guerra que nos impôs o exílio, em vez de nos desarraigar, meu irmão e eu, ao amanhecer dos meus dez anos. Essa canção também acompanhou minha reflexão sobre a forma de criar um espaço de tomada de palavra dedicado a adolescentes imigrantes e refugiados que foram despojados de sua identidade, de sua língua, de sua infância e que não escolheram nada de suas vidas até então.
Quando evoco minha trajetória de exilado, a comparação se torna inevitável. Ao contrário da minha mãe, e até certo ponto do meu irmão, que tinha dezessete anos quando chegamos ao Quebec, presume-se que eu não devo ter lembranças do que aconteceu durante a guerra. O impacto na minha trajetória foi menor. Não tive sacrifícios a fazer. Os traumas ficam para os outros. Aprendi a língua. Fiz estudos universitários. Fui bom aluno. Essa realidade não é exclusiva da minha experiência: milhares de adolescentes passam por isso. Minha trajetória não tem nada de único. Essa falsa percepção de que as crianças não sofrem o exílio que lhes é imposto porque conseguem, na maioria das vezes, se construir apesar de tudo, que resistem e que se beneficiam da proteção parental, participa de uma forma de deslegitimação de sua fala. Isso oculta problemas reais aos quais eles são confrontados, chegando a questionar a própria existência de uma parte de suas vidas. Muitas vezes se esquece que são essas crianças que se tornam responsáveis pela administração do cotidiano da família, pela gestão das comunicações entre os pais e as diferentes instituições governamentais, escolares e outras, porque são as primeiras a ter aprendido a língua do novo país. Que há uma inversão de papéis que ocorre, na qual as crianças esquecem de ser crianças e os pais deixam de saber ser pais. Essa realidade eu vivi pessoalmente e observei no meu trabalho como agente de intervenção juvenil junto a adolescentes imigrantes e refugiados. É, portanto, da experiência pessoal, dessa fala que é reduzida ao silêncio, da experiência profissional e dos ecos da canção de HK & Les Saltimbanks que nasceu o projeto Vozes Paralelas.
Combinar escrita de si e poesia no processo de tomada de palavra de adolescentes imigrantes e refugiados me pareceu uma etapa necessária para lançar luz sobre suas histórias. Um meio de legitimar sua experiência e sua vivência. A escrita de si e a poesia, no que oferecem de liberdade na criação, nos permitiram ultrapassar a barreira da língua e explorar a profundidade dos relatos pessoais ao mesmo tempo em que traçávamos os contornos de algo universal. Uma série de oficinas foi então proposta aos e às adolescentes que participaram do projeto. Durante essas oficinas, eles e elas deveriam produzir um texto que serviria de introdução à sua tomada de palavra. A única instrução que deveriam respeitar era que o texto deveria evocar suas visões, suas percepções, suas vivências. Eles e elas deveriam se apropriar de suas histórias. Essas oficinas nos permitiram aprofundar a trajetória de cada um(a). Tive o privilégio de acompanhar os e as participantes em seu processo de escrita. Naturalmente, vínculos foram criados. Eles e elas formaram duplas que depois participariam de um podcast que evocaria os impactos da Covid-19 em suas trajetórias pessoais, mas também seus obstáculos, suas amizades, suas ambições, seus sonhos.
O podcast foi colocado no ar e soma até hoje vários milhares de visualizações. A cidade de Trois-Rivières nos procurou para realizar um evento de escuta ao ar livre no parque Champlain, localizado no centro de Trois-Rivières, de cada um dos episódios do podcast, com o objetivo de sensibilizar os cidadãos e cidadãs sobre a realidade dos e das adolescentes imigrantes e refugiados que habitam esses espaços à sua maneira. Os e as participantes do projeto estiveram presentes para responder às perguntas do público. Por fim, uma exposição apresentando as fotos de cada participante, acompanhada de uma breve descrição de sua trajetória, assim como de um código QR que leva ao episódio no qual aparecem, foi instalada durante um mês na biblioteca Gatien-Lapointe, principal biblioteca de Trois-Rivières, permitindo assim inscrever o projeto na duração e ampliar seu alcance.
Ao longo do projeto, essas vozes em surdina foram se soltando na tomada de palavra para produzir uma melodia de múltiplos acentos. Do Burundi à República Centro-Africana, da Colômbia ao México passando pela Síria, esses relatos encontraram eco em uma nova língua comum: o francês. Entre as confissões íntimas e a trajetória migratória de cada um(a), o projeto Vozes Paralelas se interessou sobretudo pelos sonhos e aspirações de jovens que cultivam as terras quebequenses para enraizar-se em uma sociedade que agora é a deles e delas. Sua tomada de palavra é um ato de resistência em si. Uma palavra que se formou primeiro na escrita de si, ferramenta de apropriação da história pessoal, e que se refugiou na poesia da vivência até ressoar no espaço público. Chance, Aslouba, Jonathan, Jhon, Cynthia, Souleymane, Ariam e Abeer estão agora inscritos no imaginário coletivo trifluviano (de Trois Rivières) como o futuro de uma sociedade em busca de referências. Eles e elas são a luz no fim da qual aparece a esperança. Uma esperança que carregaram consigo para inspirar a juventude de hoje por sua resiliência, sua força, mas sobretudo sua vulnerabilidade.